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“Não sou boa o suficiente” PERFECCIONISMO COMO TRAÇO DE PERSONALIDADE E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Atualizado: 16 de jan.

O perfeccionismo é um traço de personalidade cuja definição não é consensual ainda, mas podemos definir como sendo o estabelecimento de padrões muito elevados e rígidos, tais como: auto-avaliações excessivamente críticas, principalmente quando esses padrões não são alcançados e valorização excessiva de excelências. Você conhece alguém assim?


Se conhece a série Grey’s Anatomy com certeza irá se lembrar da personagem Cristina Yang. Ela é um ótimo exemplo de pessoa perfeccionista e essa característica é bem marcante na série. Inclusive, seu padrão de oito ou oitenta reflete bem o sentimento dos telespectadores a seu respeito, como sendo uma personagem do tipo “ame” ou “odeie”.

Cristina praticamente pensa o tempo todo em medicina e em cirurgia cardíaca. Alguns podem rotulá-la fria, calculista, interesseira e competitiva. O que você acha? Cristina Yang é do tipo de pessoa firme, decidida e focada no que é importante para ela, que é sua carreira. Uma pessoa difícil de conviver e que tem dificuldades de se relacionar, tendo em vista que não confia nas pessoas, apenas em si.


Essa personagem é um exemplo do por quê é importante falar sobre perfeccionismo. Atualmente, vemos muitas pessoas falando dessa característica apenas como sendo algo positivo e que deve ser reforçado – como já é, tendo em vista a sociedade competitiva na qual vivemos-, mas pouco se fala dos seus aspectos negativos e suas consequências para a vida dos indivíduos. Assim, muitos estudos têm mostrado a influência do perfeccionismo em diversos transtornos psicológicos, tais como depressão, ansiedade, transtornos alimentares e transtorno obsessivo compulsivo. Concomitantemente, a presença do perfeccionismo nestes quadros psicopatológicos contribui para uma maior severidade dos sintomas, tratamentos mais demorados e para uma maior probabilidade de recidivas.

O perfeccionismo foi definido por Frost e colaboradores como

“tendência para estabelecer elevados padrões pessoais de desempenho juntamente com uma avaliação excessivamente crítica desse desempenho e uma enorme preocupação em não cometer erros”.

As seis tendências do perfeccionismo:

  1. Tendência em se preocupar e reagir negativamente a erros, por crença que errar corresponde ao fracasso;

  2. Tendência em duvidar da qualidade do desempenho, isto é, dúvidas sobre a qualidade de suas ações;

  3. Tendência em definir padrões muito elevados e atribuir importância excessiva a estes padrões na sua auto-avaliação;

  4. Tendência em perceber que seus pais ou cuidadores têm grandes expectativas sobre você;

  5. Tendência em perceber os pais ou cuidadores como sendo excessivamente críticos;

  6. Tendência em acentuar grande importância na ordem/organização.

Contudo, o perfeccionismo não representa apenas características negativas, disfuncionais ou patológicas. Por exemplo, outros autores descreveram o comportamento perfeccionista como um fator positivo e essencial também para conseguir alcançar certas metas e objetivos.


Então, como identificar a diferença entre o perfeccionismo normal e o perfeccionismo exagerado?


Diferença entre perfeccionismo adaptativo e perfeccionismo disfuncional


Hamachek foi um dos primeiros autores a realçar a necessidade e a importância da distinção entre perfeccionismo normal ou adaptativo e perfeccionismo neurótico ou mal adaptativo.


Perfeccionismo adaptativo

Esforço para atingir padrões razoáveis e realistas, que quando atingidos conduzem a um sentimento de satisfação e aumento da auto estima. Assim, os indivíduos definem objetivos elevados e são capazes de estabelecer limites à sua performance levando em consideração as suas forças e limitações. Eles conseguem obter prazer nos trabalhos que exigem grandes esforços e se sentem livres para serem menos precisos conforme a situação permita. Nesta linha, esses sujeitos não apresentam uma percepção de aceitação condicional, ou seja, não estão demasiadamente preocupados com as avaliações dos outros quanto ao seu desempenho. Deste modo, as pessoas com este tipo de perfeccionismo reconhecem que podem cometer erros e que seu valor não é ligado a isso.


Perfeccionismo disfuncional

Abrange uma preocupação excessiva em cometer erros e uma culpabilização de si, excessiva auto-crítica, um sentimento persistente de que os padrões ou expectativas auto-impostos não estão sendo alcançadas e uma preocupação em não alcançar as expectativas dos outros. Assim, os sujeitos com um perfeccionismo disfuncional acreditam que o seu valor pessoal e que os julgamentos dos outros sobre si dependem do seu desempenho. Eles também frequentemente evitam envolverem-se em experiências novas, pois têm receio de cometer erros e geralmente reagem muito mal às críticas que lhe são expostas, mesmo que estas críticas sejam construtivas. Além disso, costumam ter dificuldades em tirar um tempo para descansar ou relaxar, como também estar com amigos, por pensarem que estão perdendo tempo que poderia ser usado de uma forma mais "produtiva".


Origens e implicações do perfeccionismo


Nas últimas décadas diversos autores têm especulado sobre as origens do perfeccionismo, dirigindo a sua atenção para a natureza das relações pais e filhos e sugerindo que a origem do perfeccionismo está relacionada com uma “vinculação problemática” nessa relação. Isso quer dizer que uma vinculação insegura, por exemplo, resultaria de relações pais e filhos imprevisíveis, severas ou instáveis, na qual a percepção de valor da criança e da incondicionalidade do amor e cuidado, são percebidas como incertas ou condicionais a um tipo de comportamento. Pais de perfeccionistas disfuncionais são caracterizados como sendo severos, críticos, controladores e exigentes, estabelecendo padrões exorbitantes para os seus filhos. Em contrapartida, a vinculação segura surge quando os pais são emocionalmente acessíveis e carinhosos com os seus filhos. Este tipo de vinculação fornece uma sensação de conforto e previsibilidade, encorajando a exploração de novos desafios interpessoais e de desenvolvimento (Rice & Mirzadeh, 2000).



O perfeccionismo tanto pode revelar um esforço apropriado para alcançar o sucesso, quanto um medo do fracasso pelo evitamento de erros, tarefas, desafios e insatisfação com o seu próprio desempenho. De fato, o perfeccionismo quando é adaptativo encontra-se associado a elevados níveis de aprendizagem, autoeficácia e desempenho em diferentes domínios. Mas, quando se trata do perfeccionismo disfuncional, encontra-se associado a uma baixa autoestima, à procrastinação quando o indivíduo percebe que não conseguirá alcançar a perfeição naquela tarefa, a maior probabilidade de recorrer ao consumo de álcool e/ou outras substâncias ilícitas para evitar lidar com estresse e, por fim, tem sido frequentemente relacionado a diversas psicopatologias.


Por exemplo, o perfeccionismo é a característica central das perturbações alimentares, uma vez que em processos de autoavaliação, geralmente os indivíduos atribuem importância considerável à forma corporal e ao peso. Os indivíduos com maiores níveis de perfeccionismo têm necessidade de apresentar uma imagem corporal perfeita perante outros e podem acabar se envolvendo em comportamento como contagem de calorias, verificação corporal repetida e excessivo controle do peso, forma corporal e alimentação. Este mecanismo acaba por sustentar a manutenção dos sintomas das Perturbações alimentares (Vaz, Conceição, & Machado, 2009). Um estudo de Forbush et al. (2007), com amostra populacional de 2482 sujeitos evidenciou uma relação significativa entre o perfeccionismo e os comportamentos alimentares disfuncionais especialmente a Anorexia e a Bulimia.


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Escrito por:


Beatriz Zanetti (CRP - 01/19319) - Psicóloga pela Universidade de Brasília e Mestre em Educação para Carreira pela Universidade Livre de Bruxelas. Dedica-se a auxiliar quem vive transições de vida e carreira, na busca por felicidade, presença e equilíbrio, no Brasil ou no exterior. Atendimentos em português e inglês.


Stephanie Marques - Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário IESB. Entusiasmada em aprender sobre o ser humano e o mundo, vê a escrita e a leitura como formas de disseminar o conhecimento.

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