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"EU GOSTO DE PARIS, MAS NÃO SEI SE PARIS GOSTA DE MIM” SOBRE SE ADAPTAR À UMA NOVA CULTURA

Atualizado: 22 de nov. de 2023

Na série Emily em Paris o processo de adaptação cultural e os desafios inerentes a ela são evidenciados em todos os episódios. Entender esse processo é muito importante para todos que moram ou querem morar fora do Brasil, seja para estudar fora, ter uma carreira internacional ou encontrar mais qualidade de vida. O objetivo deste artigo é falar sobre o processo de adaptação cultural.


A migração é um acontecimento sociológico, inscrito em um contexto histórico e político, que traz diversas consequências para os sujeitos. As razões que levam ao indivíduo optar pela migração são diversas, mas podemos concordar que em todos os casos é um ato de coragem que influencia a vida dos indivíduos em todos os âmbitos e ressignifica toda a sua história familiar.

Este ato de coragem é vivido pelos indivíduos de forma ambivalente: desejo de partir e medo de abandonar a família, desejo de independência e de manter os laços, modo de resolução de conflitos familiares, pessoais e profissionais e etc. Tendo em vista que cada sistema cultural engloba uma língua, um sistema de parentesco, um corpo de técnicas e modos de fazer, a culinária, as artes, as técnicas de cuidado… Adaptar-se significa ajustar a uma nova cultura diferente da sua. E então aparece a pergunta: Como se adaptar?


Segundo os dados oficiais da OCDE mostram em 2019 havia cerca de 271 milhões de pessoas vivendo fora de seu país de nascimento em todo o mundo. Os últimos dados disponíveis indicam um aumento significativo nos fluxos globais de migração para os países do G20 em 2019, com cerca de 12,5 milhões de novos imigrantes temporários e permanentes. Isso representa um aumento de 10% em comparação com o ano anterior. Em meados de 2020, a população global de refugiados atingiu 26,3 milhões, aumentando em quase um quarto de milhões de refugiados desde o número recorde alcançado no final de 2019.


Impactos da migração na identidade

A migração provoca um impacto decisivo no ciclo vital da família tendo as mais variadas consequências, tanto em termo do comportamento individual de seus integrantes, afetando o processo saúde-doença, como em termos da configuração das relações, principalmente ressignificando-as, gerando novas referências de ação e comunicação entre os membros de um sistema familiar.


O contexto em que os estudos e discussões sobre a modernidade desses impactos tem surgido é o dos novos nomadismos e das redefinições das identidades territoriais. Uma das possibilidades da globalização é o trabalho online, onde é possível estar em qualquer lugar desde que tenha contato com a internet. Assim, surgiu o novo modelo de nomadismo e que abre diversas possibilidades e oportunidades: nomadismo digital, o qual se refere a liberdade geográfica de trabalhar de forma online e estar onde quiser.


Segundo BJ Casey, psicóloga americana com pós-doutorado em Psicologia do Desenvolvimento, não há lugar sem homem nem homem sem lugar. Esta afirmação revela a compreensão da indissociação do homem e o seu lugar no espaço, ou seja existe uma indissociabilidade ser-lugar, homem-espaço e os lugares em que o indivíduo viveu ou vive são responsáveis pela constituição de sua maneira de ser. Isso acontece por meio da percepção, da sensação, cognição, da cultura e imaginação, que essa relação espaço-homem se constitui.

Somos nossos lugares, assim como eles nos são. Não estamos no espaço: somos sendo espacialmente. (HEIDEGGER, 2001).

O conceito de biculturalismo é apontado pela autora Rouse (1992) como a possibilidade de lidar com as duas culturas sem necessariamente ter que renunciar a uma, levando em consideração o temor de renunciar e como consequência perder sua identidade. Muitas das dificuldades vivenciadas pelos imigrantes é esta dualidade.


Assim, entre os fatores de encorajamento, a identificação com o lugar é crucial. O estabelecimento de laços e a sensação de pertencimento ocorrem em um lugar cujas características sociais, culturais e a organização espacial não sejam de todo desconhecidas. É o chamado envolvimento com o lugar. Para a psicologia ambiental, o processo de envolvimento com o lugar implica pelo menos mais dois aspectos:

  1. Dependência do lugar: se refere às vantagens comparativas do lugar, o que tem ali que não tem em outros lugares;

  2. Identidade com o lugar: expressa as características do lugar com as quais a pessoa se identifica, vendo-se nele.

Assim, estes fatores são fundamentais para ajudar a promover o envolvimento e identificação deste novo lugar como sua casa e seu lar.


Indicação: Série Emily em paris


Emily é norte-americana, da cidade de Chicago, a qual ela tem muito orgulho e menciona sua cidade a todo momento, como também utiliza de comparações desta com Paris. Especialista em marketing, especificamente na área de mídia social, ela recebe a oportunidade de trabalhar em Paris para substituir a sua chefe, que precisou cancelar a viagem por estar grávida. Assim, por já estar esperando e desejando crescer profissionalmente, ela não hesita em aceitar o convite e embarca ansiosamente para a França. E adivinha? Tudo acontece tão rápido que ela nem se preocupa em aprender o idioma francês (em um próximo artigo vamos falar sobre como você pode está se boicotando para aprender um novo idioma).

Ao desembarcar, a série inicia a exploração das expectativas de Emily, suas experiências e os costumes, estereótipos e personalidades de ambas as culturas, estadunidenses e franceses. A missão de Emily é levar uma perspectiva “americana” à empresa em que vai trabalhar, mas suas ideias, dificuldades com a língua francesa e costumes não são bem aceitas pelos colegas de trabalho.


Uma das suas reclamações é sobre estar se dedicando a gostar de Paris, mas que as pessoas e os costumes de lá parecem não colaborar com ela. Ao assistir a série, fica claro que há uma dificuldade de Emily em reconhecer e respeitar o valor da nova cultura.


Na série você consegue identificar o modelo criado por Kalvero Oberg, chamado de “Curva de U”, no qual descreve-se os altos e baixos emocionais que ocorrem nesse período de adaptação cultural. É nítido que Emily passa pelas fases de “lua de mel”, choque cultural e por fim uma perspectiva mais positiva e confortável da nova cultura a qual está inserida. Além disso, ao assistir a série, você também conseguirá identificar os 03 momentos de adaptação descritos abaixo:

  1. Stress e Enfrentamento: As vivências afetivas são intensas devido ao luto quanto a vida que está sendo deixada para trás, ao choque cultural inicial, ao stress de aculturação (mudança que acontece em um indivíduo ou em uma sociedade por serem expostos a uma cultura diferente por um longo período de tempo) e ao enfrentamento de desafios antes desconhecidos. O modelo de adaptação e crescimento pelo Stress, de Young Yun Kim (2004), afirma que a adaptação cultural e crescimento pessoal acontece de forma espiral, onde os desafios e estresse enfrentados leva o sujeito para um crescimento e adaptação gradualmente, como um processo contínuo onde toda crise leva a nova aprendizagem.

  2. Aprendizagem da Cultura: Aqui falamos da aquisição de conhecimentos e habilidades sociais necessárias para ser bem-sucedido na nova cultura, por exemplo, fluência no idioma e compreensão das regras sociais implícitas. Assim, quanto mais tempo o indivíduo passa ali, mais ele incorpora aspectos dessa cultura em seus comportamentos e visão de mundo.

  3. Identificação Social: mudança na estrutura cognitiva, em como as pessoas se percebem em questões individuais, culturais e sociais. É um processo influenciado pela postura da cultura local frente a pessoas de fora e resulta em integração, assimilação, separação ou marginalização do novo integrante. Quando os indivíduos desejam contato com outros seres dessa cultura mas não atribuem muita importância à manutenção desta, seguem a estratégia de assimilação. Quando buscam interação, mas também desejam manter sua identidade cultural, é utilizada a estratégia de integração. Se não houver interesse em entrar em contato com pessoas fora de seu próprio grupo e as pessoas colocarem um valor na manutenção apenas de sua cultura, a estratégia é chamada de separação. A marginalização representa a estratégia de não buscar a interação intercultural nem a manutenção cultural.


Todos esses processos descritos nesse artigo podem não ser vividos de maneira linear e foram descritos assim apenas para ser mais didático.


Você está vivendo um processo de adaptação cultural? Consegue identificar o que descrevi no seu processo? Refinar seu autoconhecimento para uma mudança para o exterior é um passo essencial para torná-la mais bem sucedida. Se você gostaria de morar fora do Brasil aprenda tudo que precisa para viver essa jornada com leveza! Participe da próxima turma do Programa de Desenvolvimento Emocional, clicando aqui.


Será uma honra te atender e te ajudar a conquistar seu sonho! Por aqui você encontra um ambiente de escuta acolhedor e sigiloso.

Escrito por: Beatriz Zanetti (CRP - 01/19319) - Psicóloga pela Universidade de Brasília e Mestre em Educação para Carreira pela Universidade Livre de Bruxelas. Dedica-se a auxiliar quem vive os desafios de mudanças geográficas e profissionais. Atendimentos em português, inglês e francês.

Stephanie Marques - Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário IESB. Entusiasmada em aprender sobre o ser humano e o mundo, vê a escrita e a leitura como formas de disseminar o conhecimento.

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